quinta-feira, 27 de março de 2014

O problema das águas de março... e do resto do ano

Dia 22 de março foi o dia mundial da água e fico me perguntando até que ponto a falta de água é normal. Continua fazendo um calor digno de inferno e a chuva que tem caído continua insuficiente para reabastecer os reservatórios, que estão em níveis alarmantes. Mas será que o problema se resume à falta de chuva? Será que simplesmente com um bom volume de água vindo do céu o problema de água vai se resolver?

Há alguns meses - quando ainda não se falava em racionamento por falta de chuvas - mudamos de casa e, logo no primeiro fim de semana ficamos sem abastecimento. O reservatório do nosso bairro é alimentado através de uma outra região da cidade onde a falta de água é corriqueira e acaba atingindo todos os moradores que desta rede dependem. A nossa sorte foi que percebemos que não chegava água da rua antes que acabasse a nossa reserva na caixa d'água e pudemos assim policiar ainda mais nosso consumo. Afinal, além das nossas necessidades temos uma menininha em casa e não podemos ficar de maneira alguma com as torneiras secas.

Conversando com o nosso vizinho, meu marido descobriu que essa situação se repetia quase todos os fins de semana, quando as pessoas estão em casa e a demanda é maior. Para prevenir futuras situações desesperadoras, pedi socorro a minha irmã, que gentilmente me cedeu dois galões de 5 litros de água filtrada, que agora ficam guardados para emergências. Na mesma semana em que isso aconteceu conosco vi uma reportagem na tv que falava justamente dos problemas de abastecimento em varias regiões do país e fiquei me perguntando como isso é possível em pleno século XXI num pais considerado emergente e que se orgulha de sediar a próxima Copa do Mundo e as próximas Olimpíadas. Mais arrepiada fiquei quando lembrei que os romanos construíram aquedutos há mais de dois mil anos que abastecem a cidade de Roma até hoje, sem dispor de toda a tecnologia existente nos dias atuais. Ainda tive que ouvir uma repórter dizer que em alguns bairros do Recife a água chega apenas até o quintal das casas, porque não tem forças para chegar às torneiras internas...

A cidade onde moro, assim como muitas outras, esta situada em cima do Aquífero Guarani, uma reserva de agua enorme. Então o problema aqui, a priori, não é a falta de água, mas sim o abastecimento. É um problema de infraestrutura, de investimentos e, porque não, de boa vontade, que atravessa os anos e não se resume às estações mais secas. Cada vez mais tenho a sensação de que obras de abastecimento e infraestrutura não interessam aos nossos governantes, já que, enterradas, são invisíveis e consequentemente pouco interessantes politicamente. Por isso tenho minhas dúvidas de que, como disse acima, só uma boa chuva vai resolver nossos problemas.

Isso sem falar no desperdício de água nas mangueiras das simpáticas senhoras que insistem em lavar suas calçadas ou nas minas que surgem no meio do asfalto das quais jorram litros de água limpa cujo destino é a boca de lobo mais próxima. Enquanto isso nossas bocas correm o risco de ficar secas como as nossas torneiras...

quinta-feira, 20 de março de 2014

Acabei de Ler: La prima Indagine di Montalbano

Uma das vantagens de dominar vários idiomas é a possibilidade de ler livros que não necessariamente são editados na língua mãe do leitor – ou na língua do país onde ele vive. Esse é meu caso: nasci na Itália e vivi lá até os onze anos. Quando me mudei para o Brasil aprendi a ler, escrever e falar português na escola, mas sem perder o contato com as minhas origens e depois de alguns anos, comecei a dar aulas de italiano e graças a essa atividade consegui não apenas manter o que eu já sabia, mas pude aprofundar o conhecimento formal do idioma. Hoje, exatamente pelo domínio que tenho tanto do português como do italiano, consigo falar, escrever e ler praticamente com a mesma facilidade nos dois.

Além disso as aulas me levaram a conhecer pessoas que assim como eu vieram de lá e trouxeram consigo um montão de livros interessantes e/ou trazem mais um tanto todas as vezes que retornam à terrinha.

Não fossem as aulas que dei e ainda dou, não teria tido a oportunidade de conhecer obras que ainda não são traduzidas para o português, como La prima indagine di Montalbano, de Andrea Camilleri.



Montalbano é um delegado de polícia perspicaz, pronto a resolver todos os casos com a dedicação e a garra típica dos sicilianos, que de tão interessante saiu das páginas dos livros e se tornou protagonista de uma série televisiva exibida pela RAI. Se bater a curiosidade, aqui está a página da série.

No livro, apesar do título ser “A primeira investigação de Montalbano”, o autor apresenta três estórias que retratam o comecinho da carreira do nosso herói através de três casos diferentes. São contos que envolvem mistério mas que, ao contrário de tantos outros do mesmo autor, não envolvem assassinatos de pessoas. No primeiro o ponto central é uma estranha matança de animais, que começa com um peixe e chega a um elefante. No segundo o personagem central é uma moça misteriosa que está supostamente envolvida com a máfia e no terceiro o caso a ser resolvido é o do sequestro – e da libertação - de uma menininha. Os três contos equilibram as doses certas de mistério, de tensão, de comédia – com as tiradas mal humoradas do delegado, que sofre de uma gastrite-crônica-quase-úlcera – e até de romance, ingredientes presentes em todos os trabalhos de Camilleri. Não vou me aprofundar porque corro o risco de dizer o que acontece no final...

Outra característica da literatura deste autor é o idioma: os contos se passam na região da Sicília e, apesar da maior parte do livro ser em italiano, os diálogos são escritos em dialeto siciliano, conferindo ainda mais realismo aos seus personagens e tornando a leitura mais árdua mesmo para quem domina o italiano, mas justamente por isso mais divertida (pelo menos na minha opinião).


Sei que para quem está lendo pode ser difícil ter acesso a essas obras, mas se tiverem oportunidade – e se souberem ler em italiano – se joguem na leitura. Não vão se arrepender!!

terça-feira, 18 de março de 2014

Homenagem ao meu Dia do Consumidor

Dia 15 de março foi Dia do Consumidor e, apesar de termos no Brasil um dos melhores Códigos de Defesa e de termos conseguido graças ao trabalho do Procon e de sites de denúncia, uma série de avanços no que se refere ao desrespeito, ainda não há melhor lei que a atenção dos consumidores na hora de adquirir um produto. E estou dizendo isso por experiência própria.

Que as empresas de telefonia móvel no Brasil não sejam o suprassumo da qualidade isso todos aqueles que possuem um celular sabem. Também não é novidade que para “fidelizar” os consumidores, as mesmas lançam mão de uma série de artifícios, que vão de tarifas supostamente promocionais a aparelhos gratuitos. Pois há algumas semanas me ligaram de uma das lojas autorizadas da operadora do meu celular me oferecendo um aparelho grátis ou outros aparelhos com desconto.

O celular do meu marido quebrou e então sábado, dia 15, Dia do Consumidor, fomos até a loja para conferir a tal oferta. Chegando lá não havia aparelhos de graça, mas apenas a possibilidade de conseguir um desconto na compra de um graças ao meu programa de pontos. Marido viu um celular bem simples, sem muitos recursos, que atendia muito bem as necessidades dele e com um preço de aproximadamente R$ 120,00. O valor não é dos melhores, mas com o desconto que eu conseguiria resgatando meus pontinhos, ele cairia para R$ 60,00. Resolvemos levar o aparelho e então, quando a atendente começou a fazer o procedimento, ela me explicou quais eram as condições: com o resgate do aparelho eu assinaria um contrato por mais um ano com a operadora (até aí nenhuma novidade) e eu continuaria pagando R$ 35,00 (valor fixo que eu já pago hoje e que é revertido em créditos para ligações ou mensagens e que acumula quando não utilizado totalmente) MAS passaria a poder utilizar apenas R$ 29,90 em créditos, pois a diferença de R$ 5,10 ficaria para o uso da internet via celular. Detalhe: eu passo o dia inteiro trabalhando no computador e NÃO ACESSO a internet através do meu celular. Tentei explicar isso para a moça, mas ela disse que essa regra valeria para todos os novos planos e que eu só continuaria podendo usar todos os R$ 35,00 se eu não resgatasse o telefone. Antes que ela pudesse mudar de tela, fiz algumas rápidas considerações em voz alta:

  • Como não uso a internet, eu perderia com o novo plano R$ 5,10 por mês, o que em um ano dá R$ 61,20
  • Eu uso geralmente todos os créditos no mês, sobrando algo tipo R$ 1 ou 2 para o mês seguinte e com o novo plano eu seria obrigada a carregar mais R$ 5,00 de créditos todos os meses, o que em um ano dá R$ 60,00
  • A soma do que eu perderia com o novo plano é de R$ 121,20.
  • A esse valor devem ser somados mais R$ 60,00 aproximadamente que eu pagaria no celular novo.

Conclusão: o aparelho para o qual supostamente a empresa está me dando um desconto sairia, na minha situação, a bagatela de R$ 181,20.

Peguei meus documentos de volta, agradeci a gentil moça e saí da loja perguntando ao meu marido que raio de promoção era aquela onde eu sairia perdendo, já que nem possibilidade de escolha do serviço a empresa me dava?

A resposta dele foi: “Você pensa a respeito do que eles dizem e analisa as informações que eles dão, mas infelizmente muitas pessoas não fazem isso e ficam cegas e surdas ao ouvirem a palavra promoção". É triste, mas o que ele disse é verdade, pois muitas vezes vejo gente até bem informada cair nesse tipo de conversa.

Quem me acompanha no blog e pessoalmente sabe que sou a primeira a fazer propaganda de um estabelecimento que eu gostei, mas também falo dos lugares que me desagradaram, pois acho fatos como o que relatei uma enorme falta de respeito das empresas. Cada vez mais acredito que uma possibilidade da situação melhorar está na consciência dos consumidores na hora de comprar. É imprescindível analisar, avaliar, fazer contas e comparar preços, serviços, produtos e qualidade e, se for o caso, dar meia volta e sair do estabelecimento sem levar nada. E até denunciar para o Procon se o abuso foi demais. Quero ver se as empresas vão ficar de braços cruzados quando as vendas despencarem ou as intervenções do Procon chegarem a números estratosféricos!